Dezenas de perfis do Facebook, aos quais tenho acesso, publicam periodicamente petições online para que não seja construída a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, na Amazônia, uma ideia que ganhou muitos adeptos depois que o cineasta James Cameron, na esteira do lançamento de Avatar no Brasil, conclamou o País e o Mundo a brigar contra a obra. Cameron mudou de ideia e pediu desculpas por não ter se informado o suficiente antes de opinar. Mas, no Brasil, a discussão segue apaixonada e com direito a uma guerra de vídeos entre atores globais, contra o projeto, e alunos de engenharia, a favor.
De repente, a internet (que demanda consumo de energia) se viu inundada, tal qual o Lago do Sobradinho, de especialistas em energia, meio ambiente e políticas públicas. Claro, uma intervenção humana dessa magnitude na natureza e na vida milhares de pessoas (índios da Amazônia nacional são tão brasileiros quanto os atores da Globo) suscita um debate mais do que justo. Pena que à época em que foi criada a Barragem do Sobradinho não havia liberdade de expressão e meios como as redes sociais para discutir a evacuação das populações de Remanso, Casa Nova, Sento Sé, Pilão Arcado e Sobradinho.
A dúvida é porque ainda hoje ninguém se refere ao deslocamento humano ocorrido na década de 1970 como fruto de uma visão etnocêntrica. Talvez porque no imaginário coletivo os índios sejam um caso à parte no que toca à humanidade. A questão é proteger um povo que foi historicamente massacrado? Nada do que se faça ou deixe de se fazer hoje em dia vai apagar os danos causados pelo colonialismo europeu aos nativos (e aos negros trazidos como escravos).
Nem mesmo deixar às escuras, ou, no mínimo, sem acesso aos benefícios trazidos pela energia, milhões de brasileiros espalhados pelas cinco regiões do País que começam a utilizar geladeiras, máquinas de lavar, televisores, computadores. Como a Constituição garante igualdade de direitos, ou partimos os não-indigenas rumo à Europa e a África, conforme o caso (duvido que União Europeia concorde com isso) ou concordamos que todos os brasileiros têm direito à energia e que essa energia deve ser produzida em quantidade suficiente, o que, por enquanto, está claramente vinculado à instalação de novas usinas.
São as margens do Rio Xingu o local mais indicado para a construção de uma usina, tal como se planeja desde 1975? Não tenho informação suficiente para opinar. Mas parece razoável que um país detentor de 12% da água doce do planeta use esse potencial. Pelo menos até que a cência avance a ponto de tornar os investimentos em energia solar e energia eólica suficientes para manter os quase 200 milhões de habitantes de um país que caminha para ser a quinta maior economia do mundo.
Enquanto os ventos e sol não forem fortes os suficientes, sugiro aos que protestam contra a construção de usinas hidrelétricas que, por uma questão de coerência, não gastem energia com a internet para promover petições online.
Publicado em 07/12/2011
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